Transformações, como lidamos?

Por: Gabriel




Na visão de Eliana Bertolucci, trans-forma indica a transcendência da forma. Em seu livro “Psicologia do Sagrado”, a autora explica que o oposto da transformação, em nível pessoal, seria a identificação, ou apego, com as formas. No sentido que a autora explica, forma seria todo e qualquer papel social, profissão, relação, lugar, condição ou qualquer outra coisa à qual atrelamos a nossa identidade. Em outras palavras, quando nos apegamos a essas formas, ou seja, quando acreditamos que nossa profissão, lugar onde moramos ou relação define quem somos, nós estamos fixados a uma forma de ser, e nos tornamos resistentes a qualquer tipo de advento que possa modificar essa imagem de nós mesmos.


À primeira vista seria fácil alguém dizer “ah, mas eu mesmo adoro mudanças, as coisas me entendiam quando ficam sempre iguais”. Uma amiga acho que definiu bem esse problema quando nos contou o seguinte: “eu descobri que amo novidades, mas processos de mudança são difíceis para mim”. E de fato existem diferenças importantes entre novidades e mudanças. Novidade é uma palavra geralmente vinculada a inovação e a mudanças positivas. Quando falamos de mudanças e transformações, não necessariamente. Imagine por exemplo saber que dentro de 10 dias você terá que mudar de casa. Aposto que nem todo mundo se sentiria motivado para procurar uma nova casa dentro de 10 dias porque foi descoberto um problema sério na que você aluga e vai ser necessária uma reforma imediata. Faça um exercício agora, imagine as várias casas em vários sites de imobiliárias, a escolha de um frete de mudança, a escolha do dia para fazer a mudança, o tempo que vai levar até a casa nova deixar de parecer um acampamento. Agora feche os olhos e observe o estado do seu corpo e os sentimentos que surgem.


Robert Maurer nos ajuda a entender melhor essas reações, em seu livro intitulado “Pequenos Passos para mudar sua vida”, o autor explica que “todas as mudanças, até mesmo as positivas, podem ser assustadoras. Maurer, nos explica que nosso cérebro está disposto a aturar um alto grau de desconforto em uma situação para preservar a segurança. E isso tem muito sentido quando pensamos nos nossos antepassados da pré-história, que tinham de lidar desastres naturais e predadores sem os apps de previsão de tempo ou casas com muros (que sorte a nossa?). Por isso qualquer mudança de ambiente exigia priorizar a segurança do grupo, ou seja, melhor lidar com a umidade ou a falta de espaço, do que sofrer o ataque de uma onça na madrugada. Essa é uma característica evolutiva importante, que permitiu a sobrevivência da espécie humana ao longo das eras.


As autoras Emily Nagosky e Amelia Nagosky (que são gêmeas), em seu livro “Burnout: o segredo para romper o ciclo de estresse”, nos explicam que a grande questão é que temos um cérebro bastante parecido com o dos nossos antepassados de 100 mil anos atrás, mas hoje em dia não é o ataque de um leão que desencadeia em nosso corpo a reação de estresse, mas adventos como começar um novo emprego, um novo relacionamento ou uma atividade física. Eventos que não representam uma ameaça à vida biológica, mas uma ameaça simbólica à nossa estrutura psicológica.


Por isso muitas vezes, mesmo as mudanças que desejamos nos provocam medo, ainda que seja difícil de perceber. Procrastinação, obstáculos ínfimos, falta de vontade, já passou por isso? Ou ansiedade, raiva, sentimento de frustração, já sentiu algo assim? Todas essas são formas disfarçadas do medo. Medo esse que é difícil de enfrentar sem ser reconhecido. E justamente esse medo, que nossos ancestrais também sentiram, muitas vezes nos mantêm em zonas de segurança bem desconfortáveis, dentro das nossas cavernas úmidas.


Um dos motivos de trazermos esse tema é justamente para trazer a reflexão de quais são as zonas de conforto (ou de desconforto) que você, que nos lê, se encontra hoje, gostaria de mudar, mas tem adiado. E também para ajudar a decidir se essa é uma mudança que vale a pena.


Vale ressaltar aqui que o primeiro passo de uma mudança que se deseja fazer é desistir da situação que estamos. Para muitas pessoas a palavra “desistir” evoca fracasso. Aqui entendemos de forma diferente, desistência é também desapego, tirar da mochila os livros do ano passado para fazer uma caminhada mais leve. Como diria Tibério Azul “desistência é um bem maior de se alcançar”.


Em Burnout: o segredo para romper o ciclo de estresse as autoras disponibilizam a planilha abaixo, que pode nos ser útil no tema em questão. E aqui lhe propomos o exercício de botar à prova se vale à pena desistir de uma determinada situação atual (emprego, cidade, relacionamento, dieta, atividade física, etc.), colocando na balança quais são as vantagens e desvantagens de permanecer onde se está. Depois conta pra gente como foi. Até mais.


Referências:

Eliana Bertolucci. Psicologia do Sagrado. São Paulo: Ágora, 1991.

Robert Maurer. Pequenos passos para mudar sua vida. Rio de Janeiro: Sextante, 2016.

Emily Nagoski , Amelia Nagoski. Burnout: o segredo para romper o ciclo de estresse. Rio de Janeiro: BestSeller, 2020.

Tibério Azul. O homem que nasceu amanhã. In: Tibério Azul. Líquido. 2017.




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