O que é saúde para você?

Vou começar esse texto citando Juan Gérvas, que em seu livro “São e Salvo” escreve:

Há muitas definições de saúde. A pior é a da OMS: “A saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não meramente a ausência de doenças ou enfermidades”. Essa definição é o germe que leva ao paradoxo da saúde, porque ninguém consegue tal estado de saúde, exceto, talvez, durante o orgasmo.

Decidimos trazer essa pergunta na primeira interação da Circular porque trabalhamos com saúde, né? É isso que entendemos que médicas (e outras profissionais da saúde) fazem, certo? Saúde?

Na prática, no entanto, somos procuradas para cuidar de adoecimentos. É como se a gente só se desse conta do que é saúde quando ela nos falta…

Além disso, a percepção do que é adoecimento (e, portanto, do que é saúde) varia consideravelmente entre as pessoas que atendemos, e parece refletir muito do seu contexto de vida. Ou seja, encontramos várias narrativas sobre saúde e doença na nossa prática. Conceitos que foram construídos ao longo das vivências de cada pessoa, e que, por isso, trazem muito de sua singularidade.

Não parece existir uma resposta certa para essa pergunta. Recebemos respostas e fotos diversas quando lançamos ela em nosso Instagram. Alguns pontos comuns apareceram por lá: bem estar físico, emocional, psíquico, qualidade de vida. E que apesar de comuns em-textos-de-poucos-caracteres-para-caber-em-uma-caixinha-do-instagram ainda podem representar coisas bem distintas para cada um. Apareceram também algumas respostas que ilustram aspectos singulares da história daquela pessoa: “ter tempo para entender minhas necessidades”, “ter energia pela manhã pra fazer as coisas que gosto”, “fazer um trabalho que gosto”.

Na narrativa que venho construindo, saúde pra mim é algo parecido com: ter tempo e energia pra fazer e sentir tudo aquilo que me faz sentir que vale a pena estar viva. Sabe como é? Quando você sente aquela conexão com alguém ou com algum momento ou lugar e pensa: que experiência MA-ravilhosá poder viver isso daqui? Pode ser uma alegria, uma dor depois de perder alguém que foi muito importante… e ver como aquilo ali vai transformando a gente. Minha experiência na medicina passou por isso aí, mas isso é papo pra outro momento…

Hoje vou compartilhar, pra fechar, a narrativa mais linda que conheço de saúde, inspirada pela Debrinha, que compartilhou com a gente a foto da avó dela.

Esse da foto é meu avô. Vô Santo, pros netos e agregados. Hoje ele tem 91 anos e uma lista enorme de comorbidades. Alguns diagnósticos, alguns comprimidos pra todo dia. Minha mãe e minhas tias passam o maior aperto com ele, porque ele é idoso e tem muitos problemas de saúde, mas também é muito independente e disinquieto (ele é do interior de Minas Gerais, tem o melhor vocabulário do Brasil, ni qui eu vou usar esse vocabulário nesse texto sim). Ele trabalha na fazenda desde criança e faz de um tudo. Nessa foto ele tinha 89 anos e pouco tempo antes dela, foi derrubado no chão e pisoteado por uma vaca. SIM! Pi-so-te-a-do por uma vaca. E se você perguntasse pra ele nessa época se ele quer catirar a saúde dele pela minha (que sou uma jovem saudável, obrigada), acho difícil que ele quisesse, porque eu mesma, teria morrido com uma sapateada daquela… Hoje talvez ele quisesse, porque apesar de lúcido, já não consegue montar um cavalo, tirar leite de manhãzinha ou fazer caminhadas mais longas pela fazenda, que é o que ele mais gosta na vida (depois de um pão de queijo e um franguinho com quiabo, claro). Mal sabe ele que tá cheio de novinho invejando a saúde dele…




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