O que é prevenção quinquenária? (E por que esse assunto me interessa?)

Por: Bárbara


Esse termo vem aparecendo na literatura científica médica de Portugal desde 2014 e tem trazido reflexões importantes sobre o cuidado à outra.


Temos quatro (agora cinco) níveis de prevenção que existem para auxiliar a profissional de saúde a oferecer cuidados de melhor qualidade à pessoa que assiste. A prevenção quinquenária traz a ideia de que podemos prevenir danos às pessoas assistidas atuando nas profissionais de saúde. Pensar esse nível de prevenção nos obriga a repensar o papel da médica (ou outra profissional da saúde) na relação terapêutica.


Parece ser ideia comum no imaginário das pessoas que médicas ocupem um outro patamar de conhecimento sobre saúde. É como se a categoria fosse guardiã de um saber exclusivo e inquestionável… A médica sabe sempre o que é melhor pra sua saúde! Beeeeem, não é bem assim… Essa história de que “se a médica falou, tá falado”, são águas passadas, né quiridas? A função da médica é estudar e traduzir o conhecimento científico pra você, para que juntas tomem a melhor decisão pensando na sua questão de saúde, contexto de vida e possibilidades. Portanto, a médica é mais um recurso de saúde pra você, pra que no fim das contas VOCÊ possa fazer melhores decisões sobre a sua saúde.


Então vamos pensar um pouquinho sobre o que pode acontecer se a médica que está te assistindo não está bem (e aqui espero que todo mundo entenda que médicos adoecem, não é mesmo? Então tá bem!)? O ambiente de trabalho cada vez mais exigente, com mais pessoas para atender, menor tempo de consulta, mais horas extras, jornadas de trabalho maiores, com a necessidade de tomar decisões acertadas, pode acabar por gerar nas médicas uma exaustão física e/ou psicológica (tipo quando uma máquina que para de funcionar porque está superaquecida — exemplo que José Agostinho Santos traz no editorial da revista portuguesa sobre o tema). A essa exaustão chamamos de Burnout. Ainda vamos falar mais sobre Burnout por aqui, mas por ora, vamos ver o que caracteriza o quadro clínico de Burnout:


É uma síndrome psicológica, secundária a uma resposta crônica ao stress profissional excessivo e se caracteriza por: exaustão emocional, despersonalização e diminuição da realização profissional. A exaustão emocional caracteriza-se por sentimentos de cansaço e desgaste emocional; a despersonalização consiste em atitudes e sentimentos de frieza e distância face aos doentes; a diminuição da realização profissional refere-se à redução dos sentimentos de competência e satisfação no trabalho. Assim, o Burnout repercute-se no nível individual, contribuindo para manifestações psicossomáticas, distúrbios psicológicos, dificuldades relacionais, abuso de substâncias psicotrópicas e, em casos extremos, suicídio e aos níveis profissional e organizacional, resultando num aumento de erros, diminuição da produtividade, eficácia e qualidade do serviço prestado, bem como aumento de conflitos interpessoais de natureza laboral.

Abreu I, Baía C, Silva J, Borges R, Pinto S. Projeto de Intervenção Burn-Down: o impacto do Burnout nos Cuidados de Saúde Primários e o benefício da Prevenção Quinquenária numa Unidade de Saúde Familiar. Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional online. 2021, volume 12, 1–19. DOI: 10.31252/RPSO.06.11.2021


Consegue ver o impacto que o bem estar da profissional que te atende tem sobre a sua saúde? E que quando pensamos nas médicas como pessoas, humanas, mesmo que atuem de forma ética, responsável e sejam comprometidas quanto a sua atualização profissional ainda podem errar tanto tecnicamente quanto em suas relações interpessoais (relação médica-pessoa assistida) porque tem suas condições biopsicossociais deterioradas? Ou seja, estão adoecidas?


Estratégias propostas para a prevenção quinquenária (cuidar da saúde da profissional da saúde, para assim cuidar da saúde das pessoas assistidas) são:

  • Cuidar de aspectos intrínsecos e biopsicossociais da profissional da saúde, enquanto pessoa

  • Pensar estratégias que visam gerar mudanças na comunidade onde a profissional está inserida para criar uma maior fluidez da relação profissional-pessoa

  • Criar estratégias no local de trabalho que favoreçam a maximização do potencial profissional (recursos humanos adequados, estrutura necessária para a atividade profissional, recursos materiais disponíveis, suporte à prática clínica, proximidade de outras especialidades médicas para referenciação e/ou discussão quanto à decisão clínica, protocolos de atuação clínica)

  • Estratégias junto à administração/gestão dos serviços de saúde para garantir a satisfação da profissional de saúde enquanto empregada de uma entidade que a contrata (remuneração adequada e previsível, expectativa realista de desempenho da profissional).

Entendo que a formação médica no Brasil ainda é, infelizmente, bastante elitista. E que talvez esse tema te pareça um mimimi de quem tem que trabalhar mais mesmo, porque ganha mais que a maioria das outras profissões*. Mas aqui estamos falando de relações de cuidado, de troca. É esse o tratamento que você quer trocar com a profissional que presta assistência a sua saúde?


Você que é profissional de saúde, sente que tem suas necessidades enquanto pessoa cuidadas em seu contexto de trabalho? Você que não é profissional de saúde, sente como uma pessoa pode afetar sua saúde (de forma positiva ou negativa) pra além de suas habilidades técnicas? Conta aqui pra gente o que você acha sobre esse tema ;)


Um causinho, como sempre, pra fechar. Dessa vez um tanto quanto pessoal, então peço (principalmente aos amigues mais antigos) pra que antes de ler, considere que esse relato é um pedacinho da minha história, e que apesar de fazer piadinhas com vários aspectos da minha vida, isso aqui tem me exigido coragem pra sair da caverna :)


Todo dia 9/12 aparecem fotos dos meus colegas do dia da nossa formatura no meu feed do Instagram. Eu nunca me lembro dessa data e nunca me conecto com as legendas emocionadas que acompanham as fotos. Talvez porque a data não me transporte pra lembranças felizes… Lembro do dia da minha formatura como o dia da celebração de todo o meu desconforto, tanto que horas antes da cerimônia vomitei de tanto estresse (talvez um dia conte essa história). Ainda bem que a vida depois da faculdade de medicina e da formatura pode ser maravilhosa, sim senhora. A medicina de família e comunidade foi o lugar em que me reconheci médica, e que desde então escolhi ocupar. Tem sido uma jornada e tanto. Há uma semana decidi que precisava de um tempo da atenção básica do SUS, porque como diria a geração dos meus avós: amor não enche barriga (e tem sido cada vez mais triste de ver). E como foi difícil aceitar que precisava desse tempo… Soldier down! Tô aqui vivendo esse luto um dia depois do outro… encontrando suporte em histórias de médicas que tiveram processos parecidos. Penso sozinha e em comunidade, com outras amigas profissionais da saúde, que meu trabalho ideal poderia me pagar um salário bem menor, se tivesse melhores condições de vida. Já teve um tempo em que algum outro profissional de saúde invejava a minha remuneração enquanto eu invejava o tempo que ele tinha pra um cafézinho com a equipe no meio da tarde (e isso não era poesia da sofrência, era cansaço e necessidade de rede de apoio mesmo). Enfim, muito mais me interessa salários equiparados, profissionais valorizados (independentemente do diploma que tem na gaveta), distribuição justa de renda, pra que consigamos viver melhor. Pra que ao encontrar outra pessoa que sofre, a gente tenha mais o que oferecer além de sofrer o sofrimento dela… Por enquanto continuo por aqui, suja de sangue, suor e lama, mas em outras arenas (discípula de Brené Brown, sim), escolhendo compartilhar o que aprendi até aqui e esperançando que em breve tenha condições de retornar ao postinho.


Referências:

1. Santos JA. Prevenção quinquenária: prevenir o dano para o paciente, actuando no médico. Rev Port Med Geral Fam. 2014;30(3):152–4. https://doi.org/10.32385/rpmgf.v30i3.11358

2. Coulter A. Paternalism or partnership?Patients have grown up — and there’s no going backBMJ 1999; 319 :719 doi:10.1136/bmj.319.7212.719

3. Abreu I, Baía C, Silva J, Borges R, Pinto S. Projeto de Intervenção Burn-Down: o impacto do Burnout nos Cuidados de Saúde Primários e o benefício da Prevenção Quinquenária numa Unidade de Saúde Familiar. Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional online. 2021, volume 12, 1–19. DOI: 10.31252/RPSO.06.11.2021

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