Médica de Família e Comunidade e Clínica Geral são a mesma coisa?

Por: Bárbara


Spoiler: NÃÃÃÃO!

É fácil a gente se perder nas especificidades que cada área do conhecimento vai construindo ao seu redor né? Quem é que entende alguma coisa útil de tributação no Brasil não sendo contador ou administrador? E dos paranauê da justiça (observe que não sei nem nomear) não sendo um advogado? Com a saúde (e o sistema de saúde) não seria diferente né?


É claro que a gente sempre pode se dedicar a entender qualquer um desses assuntos de forma mais aprofundada, mas não dá pra ser especialista em tudo né? Algumas mãos a gente tem que soltar! E nesses casos, ter alguém da área em questão pra facilitar o entendimento, poupa um trabalho né mesmo? Hoje então, vou tentar explicar um pouquinho as diferenças entre uma médica de família e comunidade e uma clínica geral.


No Brasil, depois dos 6 anos de graduação em medicina, a pessoa pode se registrar no CRM do seu estado e a partir daí está apta para exercer a medicina. Essa pessoa é considerada clínica geral, ou seja, não fez nenhuma formação complementar para se tornar especialista em determinada área, mas pode atender de acordo com as habilidades que desenvolveu até então. Frequentemente, médicas recém formadas fazem o primeiro atendimento em serviços de urgência de menor complexidade, atendem em posto de saúde, fazem exames de trabalhadores para empresas.


A médica recém formada pode então decidir continuar trabalhando como clínica geral e ir se atualizando conforme suas necessidades (direcionada pelas funções que desempenha, por exemplo), ou pode optar por fazer uma formação complementar para aprofundar seu conhecimento em determinada área do conhecimento médico. A medicina de família e comunidade é uma das opções para especialização na medicina, assim como cardiologia, endocrinologia, ginecologia, etc.


A formação em medicina de família e comunidade tem muitas especificidades, o que discutimos um pouquinho no texto anterior. À medida que a médica vai ampliando seus conhecimentos clínicos (como diagnosticar e tratar doenças), vai aprendendo ferramentas indispensáveis para o seu trabalho do dia-a-dia, porque aqui os conhecimentos clínicos não são suficientes.


Como pontua McWhinney, a especialização da medicina e a ênfase na tecnologia que vem sendo incorporada à profissão desde a primeira metade do século XX vem deteriorando a relação pessoa-médica. Ouvimos muito essa queixa por aí né? Talvez você mesma já tenha se queixado da forma que foi atendida quando precisou procurar atendimento médico.

A medicina de família e comunidade então faz com que as médicas pensem sobre seus próprios conceitos de saúde, doença, experiência da doença, ética do cuidado, e assim, compreendam a pessoa que procura atendimento de forma diferente. Como pessoa, e não como doença! Tá passada?


Como a função da médica de família e comunidade no sistema de saúde é oferecer cuidado continuado e abrangente às pessoas que atende, ela deveria ser SEMPRE o primeiro contato das pessoas com o sistema de saúde. Isso porque ela é capaz de resolver até cerca de 80% das queixas que se apresentam a ela no seu local de prática. Dessa forma, os especialistas focais (cardio, endócrino, psiquiatra, etc) podem focar naquilo que fazem de melhor, já que a pessoa que vai chegar para atendimento já teve suas necessidades ouvidas e abordadas, e nesse caso realmente precisa de seus cuidados. (Mais pra frente falaremos porque essa divisão de tarefas em níveis de atenção é importante, para as médicas, mas principalmente pra você que se consulta).


Entendemos (de uma vez por todas, espero) que o papel de uma médica generalista não é simplesmente encaminhar para especialistas. Certo? Ok.

Quando então devo buscar uma médica de família e comunidade? Quando tenho um sintoma novo que não se resolve com as estratégias que sempre uso. Quando já tenho algum(ns) diagnóstico de saúde que precisa de acompanhamento (exame clínico, receitas, exames complementares). Quando preciso de aconselhamento em saúde pra alguma queixa que aparece com alguma frequência na minha vida. Quando procuro aconselhamento de saúde, mesmo sem ter nenhum sintoma ou doença.

E quando eu devo buscar diretamente um especialista focal? Idealmente, nunca. A não ser que esteja procurando algum serviço muito específico como procedimentos estéticos, por exemplo.


E para finalizar (e não perder o costume), um causinho pra melhorar essa experiência de leitura:

Às vezes recebo mensagens no WhatsApp pedindo aconselhamento por algum problema de saúde. Decidi fazer uma pesquisa entre essas pessoas pra entender como elas entendiam o que eu fazia e como elas pensavam quando tinham que acessar o sistema de saúde. Eis o resultado da pesquisa com uma delas:

-  Você saberia me explicar o que uma médica de família e comunidade faz?

- Sempre acho fácil a comunicação e a forma simples e direta que você explica e mostra outras maneiras de tratar sem usar apenas medicamentos. Como quando eu tava com dor na orelha (ela tava com vertigem, mas ok haha) e você deu exercícios que eu fiz e nem precisei de mais nada.

- E por exemplo, se você tivesse uma dor nas costas, e eu tivesse numa ilha deserta, sem celular, quem cê procuraria? Ou se a pressão ficasse bem louca?

- Eu perguntaria antes de isso acontecer: ô Barbri, se isso aqui acontecer, que dicas você dá? O que eu poderia fazer pra resolver? Mas se cê tiver sozinha na ilha deserta, vou consultar com Gabriel.


E você acabou de testemunhar um dia de exaltação das humilhadas! Se já fui humilhada, nem me lembro.
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